Mesa 6: o estranho não saber

“Poema de um livro destruído” foi dito na íntegra por Aurelino Costa para dar início à Mesa 6, com o título “Como é estranho não saber”, precisamente um verso extraído daquele poema de Sophia de Mello Breyner.

Filipa Martins, Ana Luísa Amaral, João Tordo, Manuel Vilas e João Luís Barreto Guimarães trouxeram contributos para aprofundar o tema, com moderação de José Mário Silva, nesta sessão que decorreu na sala principal do Teatro Garrett, esta quinta-feira, dia 21, às 17h30.

Filipa Martins, nascida em 1983, é jornalista e já publicou quatro romances – a “benjamim da mesa”. O moderador anunciou a notícia “acabadinha de chegar”, a autora recebeu o prémio Manuel de Boaventura com o romance “Na memória dos rouxinóis”, editado no ano passado.

Filipa Martins contou que cresceu nos subúrbios de Lisboa nos anos 80. As “alterações arquitetónicas”, em que havia a “expansão das marquises de inox”, estavam muito em voga. O ambiente que se vivia era “racista”, recordou ainda, “depois de turbas de retornados, chegavam vagas de gente dos PALOP. Lembro-me de ir para a escola e os meus pais ficarem a olhar através de binóculos. E o medo ia crescendo nas pessoas”.

Os portugueses iam vivendo com a informação chegada pela televisão de que “o outro era o inimigo”. Assim, a autora vivia muito no seu “quarto-cela” – “como era estranho não saber e como era estranha a minha liberdade, dizia Sophia, eu que representava a primeira geração a nascer em Democracia”.

Ora, “as respostas” para muitas destas inquietações, sublinhou Filipa Martins, “encontrei-as na Literatura”. Para a autora, nas necessidades básicas do ser humano está a do relacionamento com o outro, estando a Literatura no caminho da luta contra a desumanização.

João Tordo, de quem o moderador refere que tem um “certo pânico de falar em público, mas que volta de vez em quando às Correntes num ato de superação”, já foi jornalista, mas nos últimos anos dedica-se quase por inteiro a escrever romances, já editou 11.

“É estranho não saber – é o primeiro medo que as pessoas têm”, afirmou Tordo, aludindo a um estudo da revista Time sobre as fobias.

O escritor contou a história de quando a mãe lhe ofereceu o primeiro telemóvel moderno, com acesso à internet, altura em que o irmão mais novo lhe instalou no smartphone a aplicação Tinder. “Então descobri que o Tinder, pelos meus gostos pessoais rastreou para mim mulheres com mais de 60 anos”!

A certa altura, João Tordo marcou um “date” com uma senhora com mais de 80 anos, a “dona Rosa, mulher do Norte”, e foi para o encontro no parque. “A dona Rosa chega com um livro do Valter Hugo Mãe debaixo do braço e diz-me, «Tu não és o Valter»…, «Não, sou o João». Diz a dona Rosa: «Ele escreve melhor». Fico a pensar…ai, o caraças, mas lá lhe perdoei. Ela trazia as cinzas do marido num frasquinho pendurado num fio ao peito”…

E a história vai continuando com muito humor e bizarrices. O fim da história é com a dona Rosa a acabar o relacionamento pelo “whatsapp”.

Ana Luísa Amaral é professora universitária e uma veterana nas Correntes d’Escritas. O texto da escritora começou na sua infância, tempos passados em Sintra, depois já no verão, passado no Porto, com 9 anos de idade. No estudo acompanhado, a professora perguntou-lhe – queres ler, queres saber o que aconteceu ao cavaleiro? Era o Cavaleiro da Dinamarca, “e eu a querer saber”, recordava Ana Luísa, na altura, uma menina magrinha e franzina.

“Naquele ano de mudança de cidade, em que a viagem dentre Lisboa e o Porto demorava mais de oito horas, isto em 1965, retornava a uma casa feita de palavras, a do Cavaleiro da Dinamarca. Emociono-me ainda hoje ao lembrar a descrição de Veneza: aérea e leve, a cidade pousava sobre as águas verdes, ao longo da sua própria imagem. A primeira vez que fui a Veneza levei comigo essa frase e entendi, sentindo”.

Ana Luísa Amaral chega à Universidade, dá aulas: “pensava que sabia mais do que aquilo que sabia, que era muito pouco ou quase nada”. E acrescenta: “Há dois sentidos no saber, o primeiro é fechar os olhos e os ouvidos ao que o mundo nos diz, mas por vezes é muito bom não saber por onde se vai, deixarmo-nos conduzir pela beleza e pela emoção”. A escritora admite “cada vez acho que sei menos”.

A autora abordou a necessária desconstrução do conhecimento e da cultura e reforçou a questão da liberdade e dignidade humana, cada vez mais ameaçada neste mundo, e o papel que a poesia pode ter na luta contra essa barbárie. “E a perpassar todo o texto está o Cavaleiro da Dinamarca”, como resumiu o moderador José Mário Silva.

João Luís Barreto Guimarães divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade, bem como entre o seu labor entre a medicina cirúrgica e a poesia, embora esta venha cada vez mais ganhando terreno na sua vida. Já este ano publicou a antologia “O tempo avança por sílabas”, apresentado no Correntes, meia hora antes de se sentar nesta mesa.

João Luís começou a sua intervenção por ler o seu poema “Maçãs Selvagens”, de onde se poderá destacar – “fazer poemas é como ir roubar maçãs selvagens; vais à espera de doçura, mas surpreende-te a acidez”…

“Mais de 30 anos a fazer poesia, por vezes, parece-me estranho não saber onde ir buscar os poemas diretamente”, afirmou o poeta, que admite continuar a ser “surpreendido com a chegada do primeiro verso, que pode muito bem vir a ser o último verso do poema, mas onde quer que esse verso cristalize, é estranho de tão verdadeiro e óbvio que é, que não saiba onde se encontrava antes de vir ter comigo, o que me pouparia muito tempo e fadiga. Mas o facto de que assim seja contribui para o mistério dessa arte de escrever poesia”.

O escritor chama a esse primeiro verso, “o gatilho”, a ideia…segue-se a construção do poema com os versos “tirados a ferro”, pois almeja-se que estejam ao nível do primeiro.

João Luís termina referindo que “um dos poucos meios de não estranharmos o que não sabemos é através da arte, a poesia também tem esse dom, o de reconhecer a verdade do mundo através das palavras”.

Manuel Vilas, escritor e jornalista espanhol. Na década de 80 também se destacou como poeta. Tornou-se um fenómeno literário em Espanha com o seu sexto romance (“Em tudo havia beleza”, na edição portuguesa, acabada de publicar).

O autor começou por afirmar que “há quase 40 anos que escrevo poesia e para o mundo é igual, se não a tivesse escrito, o mundo em nada estaria diferente. O mundo não escuta os poetas”.

Manuel Vilas esclarece que não se trata de uma questão de género literário, pois o mundo “também não ouve os romancistas” e está convicto de que a “Literatura não consegue mudar o mundo”. Já se conseguisse converter toda a energia que empenhou na poesia e a transferisse para a política, a esta altura “poderia ser o presidente do governo espanhol, ou da União Europeia ou dos Estados Unidos da América”.

“Se aos escritores serviu de alguma coisa a Literatura?” Considera que “sim, quem sabe nos serviu para nos tornar mais sábios e melhor compreender o ser humano?”

Na conclusão, Manuel Vilas declara que o sentimento é melhor que o conhecimento: “é melhor amar que saber”. Subindo na escala, o poeta adianta que “melhor que o sentimento é a alegria, se me deixassem eleger um sentimento, o que eu queria era a alegria, um sentimento que é melhor até que o amor”.

(Fonte: CMPV)

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