Mesa 7 de mãos na conversa

A Mesa 7, moderada por Marta Bernardes, esta sexta-feira (22) de manhã, partiu do verso “E as minhas mãos não podem prender nada” do poema “Passam os carros”, de Sophia de Mello Breyner, para as criações e interpretações dos escritores convidados: Francisco Duarte Mangas, João Rasteiro, Juan Vicente Piqueras, Karla Suárez, Luís Cardoso e Teresa Moure.

Nascido em Vieira do Minho, o jornalista e autor Francisco Duarte Mangas leu um texto em que falou de Sophia de Mello Breyner e de um outro poeta seu amigo e já desaparecido, Daniel Faria.

“Pela mão de Sophia que nada prende e pelo despojamento de Daniel – a única coisa que possui é a planura da sua mão – termino esta viagem à volta de um verso de um poema. E volto a citar Sophia – «o poema foi sempre um círculo traçado à roda de uma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso». Queridos amigos faz-nos falta o mecanismo do fogo da palavra do Daniel, que trabalhou o silêncio até o transformar em lugar que era a pedra”…

João Rasteiro é de Coimbra, licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos, é poeta e ensaísta. Premiado com os galardões Manuel António Pina e Portugal Telecom (para a área da Poesia).

O escritor referiu que a poesia e arte em geral devem partir de “uma vontade de luta, de  dar luta mesmo sabendo que vai sucumbir”. O autor relacionou a poesia com o tempo e com o sentido utilitário.

De acordo com João Rasteiro, a poesia é inútil, não é rentável, “não nos vai salvar do aquecimento global, não nos vai fazer sair da crise financeira, não vai encontrar a cura do câncer, alzheimer ou AIDS, não vai acabar com as guerras ou acabar com os seus terríficos efeitos, nem acabar com a fome em grande parte do planeta, não vai, portanto, servir para nada (…), com ela nas minhas mãos não conseguirei prender nada”…

Juan Vicente Piqueras é de Valencia, mas vive atualmente em Lisboa, onde é diretor de Estudos no Instituto Cervantes.

O escritor começou por afirmar que “devíamos obedecer a Platão, que erradicou os poetas da sua república ideal, pois é preciso ter cuidado com eles, já que os poetas falam metaforicamente”.

O verso de Sophia fê-lo lembrar-se de outro poeta seu amigo, António Cabrera. Isto porque António Cabrera sofreu uma queda, quando tudo estava bem na sua vida, que originou que ficasse tetraplégico. E António não pode “escrever à mão”, não pode fazer gestos simples como “abrir uma garrafa de vinho e erguer o copo para brindar com os amigos”.

Em contraponto, “eu posso colher uma rosa e oferecê-la a alguém”, enquanto as mãos “do meu amigo não podem reter nada”. Há aquele velho ditado “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”. Piqueras considera que “é uma tolice, para que quero um pássaro na mão?”

Assim, acrescentou o autor, “creio que o que nos quer dizer Sophia é que tudo desaparece, que estamos e não estamos, que tudo na vida é visto e não visto”. Acredita que “as nossas mãos não conseguem reter nada e que é justo que assim seja, pois uma mão é humana quando dá e ajuda. O seu destino é estarem vazias”.

Piqueras terminou pedindo permissão a Sophia para corrigi-la: “As minhas mãos não podem prender nada. Ainda bem!…”

Carla Suárez é cubana, licenciada em Engenharia Eletrónica e também escreve. Vive em Lisboa e trouxe ao Correntes d’Escritas uma história de uma jovem estudante de Engenharia Eletrónica, que sonha o futuro, com computadores para que pudesse fazer muitas coisas ao mesmo tempo. A criação quer na área da engenharia, quer na área literária sempre foram as suas paixões.

A jovem estudante sonha com o futuro em que se misturam mundos do “Matrix” e do “1984”, que acha a internet maravilhosa, até ela se tornar “um monstro em expansão” com as redes sociais a invadirem a sua rotina e o mundo sangrento e cruel a entrar pela sua casa dentro, mesmo com as janelas do apartamento fechadas.

A jovem acaba por desligar-se desta internet invasora para prosseguir com a sua rotina e poder escrever esta história até ao Correntes d’Escritas.

Luís Cardoso, timorense e licenciado em Silvicultura no Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, participou da resistência maubere em Portugal.

Apresentou nesta mesa sobre “E as minhas mãos não podem prender nada” uma história de alguém que resolveu plantar abóboras na sua terra, enquanto o narrador “se planta aqui nesta varanda virada do avesso”.

Uma história ligada aos lugares, às emoções e à memória: “seguraste nas minhas mãos como ninguém havia feito para me informares que gostarias de plantar abóboras. Quem és tu estranho homem que me faz estranho pedido? Não tenho memória das tuas mãos ou de que alguém me tivesse segurado nas mãos assim”…

Teresa Moure também falou das mãos num contexto ligado à ecologia. A escritora de romances, poesia e ensaios, é galega e professora na Universidade de Compostela.

Teresa Moure relatou a ficção de uma mulher perante um juiz que pede para ser ouvida antes de lhe ser apresentada uma sentença. Porquê? Porque é acusada de ter ateado um incêndio, mas tem as mãos transparentes, “não podem prender nada, a minha carne toda transpareceu…”

E tudo começou quando “quis comprar através de catálogo um par de mentiras. Afinal, achei que o melhor seria escolher uma montanha para meu uso pessoal”, que era estável, pois as “montanhas protegem animais e plantas”.

(Fonte: CMPV)

Mesa 7 de mãos na conversa

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